"Você enjoa de cheiros, sabores, lugares, coisas, por que não enjoaria de pessoas?"
Eu não falo de dor, eu falo da estranha sensação que é não sentir nada.
"Você enjoa de cheiros, sabores, lugares, coisas, por que não enjoaria de pessoas?"
Eu não falo de dor, eu falo da estranha sensação que é não sentir nada.
O que há de diferente nela? O que para muitos parece importante, pra ela não parece fazer diferença alguma. Ela é daquelas que deixa de ir à balada pra ficar em casa lendo um livro novo;
Não é muito bonita, apenas meio normal. Pode ter o cabelo loiro e a cara de bobinha, porém é extremamente inteligente e às vezes excede as expectativas.
É estranha. Gosta de jogos de homens.
Tem grande frieza pelas pessoas que tentam se aproximar demais, se esquiva o máximo quanto da; ela não quer que tudo se repita de novo, que se sinta envergonhada por ter dito coisas que ela mesma pensou que nunca as fosse pronunciar.
Surpreende mostrando o quão amiga pode ser para com os que a ela pedem auxilio, entretanto não tem a mesma retribuição quase sempre. Isso a torna tão ingênua.
Talvez ela seja entediante; ela se conserva, escolhe as palavras a serem ditas. É tímida e um dos seres mais confusos da face da Terra. Ela é de lua, funciona melhor de noite.
Ela não sabe o futuro que quer construir, ela não planeja nada.
Ela é simplesmente entediante.
Já ha algum tempo venho tentando escrever sobre isso. Entretanto só peguei o caderno agora devido as circunstancias: deitada ao lado da janela sentindo a brisa fresca da chuva e observando o céu em noite nublada.
A chuva por definição do dicionário significa água que cai das nuvens; abundância (do que sobrevém); para outros trata-se apenas de um fenômeno da natureza; para mim costuma ser muito mais do que isso.
Quando era mais nova minha mãe e pai costumavam dizer que quando Papai do céu estava triste. padecendo em decepção aos humanos, ele chorava e suas lágrumas representavam as gotas de chuva. Hoje, sei que não é bem assim.
Já vi chuva de fogos, li sobre chuva ácida, e agora dedico aqui a minha chuva de palavras.
Quando o dia está muito quente logo fico almejando que o tempo mude e desabe o mundo em água. Às vezes chega até a acontecer e quando ocorre de ameaçar uma tempestade, tudo mudo; o vento sopra mais gelado, mais úmido e sobe um odor maravilhoso de terra molhada.
Assim como o ar, a chuva tem o poder de lavar almas. No ápice da tristeza se você tiver a oportunidade de se deparar com uma tempestade então não corra... se deixe molhar e aproveite a sensação que isso lhe propiciará. Imagine que suas mágoas transpareceram tanto ao ponto de você parecer estar sujo por elas e deixe que cada gota de chuva te lave, lave sua alma o deixando transparente para recomeçar de um jeito melhor.
Gosto de pensar na chuva dessa forma, como um novo começo.
Quarta-feira.
Acordei, puxei a cadeira de palha da vó até uma sombra no quintal. Sentei e peguei um livro para acabar de ler. Havia marcado a página na crônica "coisas abomináveis" de Paulo Mendes Campos. Agora, já de noite, estou a algumas páginas de terminar o tal livro As cem melhores crônicas brasileiras porém cansei de ler, lembrei da crônica do Paulo e resolvi fazer uma minha.
Coisas abomináveis.
Programação de televisão aos domingos; horário político; filme pela metade; cinema em dia de estréia; crianças mimadas; bebê chorando; modem queimado; amigo interesseiro; pretendente não correspondido; falar de si mesmo; atender telefone; sol escaldante; trem lotado; ônibus lotado; pessoas sujas; pessoas falando no cinema; falar sobre o que não conhece; pés molhados em dia de chuva; verão sem ventilador; medo do escuro; medo de fantasma; incômodo com o silêncio; arroto; se fazer de vítima; cansaço de não fazer nada; ter vontade de sair e não ter pra onde ir; ter pra onde ir e não ter com quem sair; música em inglês cantada errada; seriado americano dublado; latido de cachorro dentro de casa; dor nas costas; indisposição; aula de matemática; praia lotada; lixo na praia; coca-cola sem gás; parentes falsos; amor; saudade.
Coisas deleitáveis.
Vento de chuva; cheiro de terra molhada; banho de chuva; noite; amigos presentes; surpresas; comer sucrilhos sentada no tapete da sala do pai; ver desenho de manhã; comida japonesa; contemplar o crepúsculo; roupa de inverno; pessoas no inverno; ventilador; viagem; família; banho quente; massagem nas costas; cuidar dos amigos; falar besteira; pedir conselhos; contemplar o céu; encontrar pessoas; trakinas com coca-cola; ver filme debaixo de cobertor; ler; ter companhia; ir ao parque; ir ao parque de diversões; ver seriados; admirar pessoas elegantes; brincar com o cachorro; acordar em dia nublado; ouvir música alta sozinha em casa; cozinhar; tirar fotografia; cantar junto com a música; jogar softball por diversão; rir sozinha; escrever; ler na praia; banhar-se no mar; aprender ouvindo os outros; observar; almejar alguém; jogar video-game; experimentar as próprias roupas; fazer combinações; desenhar; conversar com amigos por mensagem; fazer compras em super mercado; lavar o rosto ao acordar; sol morno em dia frio; correr risco; se inspirar; deixar-se amar; lembranças; saudade.
Engraçado, quanto mais a gente cresce vai ficando sem graça. Nas comemorações do ano começam a ser raros os presentes ganhados; os aniversários não são mais tão cheios.
Os contos de fadas perdem a graça dando pleno lugar à realidade; os sonhos não são mais sonhos... agora denominam-se objetivos.
A areia da praia que tanto serviu para diversão em outros tempos já não é mais tão boa, incomoda; as pessoas também começam a incomodar por serem, na maioria, hipócritas, dissimuladas que só te procuram quando precisam de algo. Não existe mais a ingenuidade que costumavam ter.
Ler não é mais tão chato, até torna-se um hábito. Quando somos novos, não vemos os perigos, tudo é festa; quando crescemos nos tornamos cautelosos com medo de levar um simples tombo. E se caímos não damos risada disso, nos envergonhamos.
A escola já não importa mais, foi uma época da vida que já está concluida e agora paramos e vemos o grande mundo que temos, as variedades de escolhas; paramos com nossos diplomas na mão e pensamos "e agora?"
E agora? E afora nós crescemos, mesmo que pra família sejamos eternas crianças.
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